Pesquisa e Edição: Luiz Sérgio Castro
As décadas de 1960 a 1980 marcaram um dos
períodos mais sombrios da história da América do Sul. Sob o pretexto da
Doutrina de Segurança Nacional e do combate à "subversão comunista",
uma cadeia de regimes ditatoriais instaurou um regime de terror sistemático
contra opositores. Entre os métodos brutais de repressão, um se destaca por sua
crueza e pelo profundo trauma que causava: a tortura com ratos. Esta prática,
empregada pelas ditaduras do Chile, Argentina, Brasil e Uruguai, tornou-se um
símbolo perverso da crueldade estatal e da violência de gênero
institucionalizada.
O cenário era o das chamadas "Guerras
Sujas", conflitos internos onde os Estados, por meio de suas forças
armadas e de segurança, travaram uma guerra não declarada contra militantes de
esquerda, estudantes, sindicalistas e qualquer voz dissonante. Nesse contexto,
a tortura não era um excesso isolado, mas uma política deliberada para extrair
informações, desmoralizar os presos e semear o medo na sociedade. E entre as
técnicas de interrogatório, a tortura com ratos emergia como uma das mais temidas.
A metodologia variava, mas a essência da
tortura era a mesma: utilizar o instinto de sobrevivência do animal – um roedor
faminto e assustado – para infligir uma dor física e psicológica devastadora.
Relatos de sobreviventes, particularmente de mulheres presas políticas,
descrevem cenas de extrema brutalidade. Prisioneiras eram submetidas à
experiência excruciante de ter ratos vivos introduzidos à força em suas
vaginas. Para aumentar o controle e a penetração, os torturadores desenvolveram
métodos ainda mais cruéis, utilizando tubos para guiar os ratos até áreas
vulneráveis do reto ou dos genitais da vítima. O animal, em pânico e buscando
uma saída, causava ferimentos terríveis e um sofrimento indescritível.
Um dos exemplos mais documentados ocorreu no
Chile, durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). Centros de detenção
clandestina, como a temida Villa Grimaldi, foram palco dessas atrocidades. A
tortura com ratos era frequentemente aplicada a mulheres, numa clara intenção
de violar não apenas seus corpos, mas também sua dignidade de forma específica
e misógina. O trauma causado por tal violência era profundo e duradouro,
deixando marcas físicas e psicológicas que perduram por gerações.
Contudo, o poder dessa tortura residia também
em seu aspecto psicológico e na ameaça implícita. Em muitos casos,
historiadores e relatórios de direitos humanos sugerem que a simples menção da
possibilidade, ou uma simulação – como colocar uma gaiola com ratos sobre o
abdômen nu do prisioneiro – era suficiente para quebrar resistências e extrair
informações. O terror antecipatório, a imaginação do que poderia acontecer,
tornava-se um instrumento eficaz de coação. Este aspecto foi destacado em um
dos exemplos mais recentes do uso moderno desta técnica, onde a ameaça foi
suficiente, demonstrando que seu legado de horror transcende o período
histórico específico.
A extensão total do uso da tortura com ratos
pode nunca ser plenamente conhecida, devido à natureza clandestina das
operações e à destruição de arquivos. No entanto, seu emprego pontual por
diferentes regimes em países distintos aponta para uma troca de táticas
repressivas dentro da rede de colaboração conhecida como Operação Condor. Era
uma prática destinada a quebrar até os prisioneiros mais resistentes,
destruindo a fronteira entre a integridade física e a sanidade mental.
Revisitar este capítulo hediondo não é um
exercício de morbidez, mas um imperativo da memória. A tortura com ratos
representa a culminação da desumanização permitida pelas ditaduras, onde o
corpo do outro se tornou um campo de experimentação para o terror. Lembrar
dessas práticas é essencial para compreender a magnitude da violência de
Estado, honrar a resistência das vítimas e consolidar as frágeis democracias da
região, garantindo que tais sombras nunca mais se repitam. Como escreveu a
poetisa chilena Márjorie Agosín, a memória é "un país sin fronteras,
un país de puertas abiertas" – um país que não deve fechar os olhos
para sua própria história, por mais dolorosa que seja.
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