Por André Milne
Como uma figura do
mito clássico — Narciso, Ariadne, Jacinto, Andrômeda ou Perséfone — a vida de
Sporus sofreu uma guinada trágica nas mãos dos poderosos.
Ele era um belo
jovem romano que chamou a atenção do imperador reinante, Nero Claudius Caesar
Augustus Germanicus. Ao contrário das figuras do mito que tiveram destinos
simbólicos ou lendários, Sporus e sua história são absolutamente reais.
Dizia-se que Sporus
tinha uma impressionante semelhança com a falecida imperatriz Poppaea Sabina.
Assim, o imperador Nero, um semideus autoproclamado, mandou castrar o menino e
casou-se com ele como substituto de seu amor perdido.
Mas a vida de Sporus
como “imperatriz” de Roma foi muito menos glamorosa do que pode parecer. Ele
acabou tirando a própria vida na tragicamente tenra idade de 20 anos. Esta é a
história de um menino que foi transformado, à força, na imperatriz de Roma.
O Imoral Reinado do
Imperador Nero
Muito antes de
colocar os olhos em Sporus, o nome de Nero já era sinônimo de poder desenfreado
e perversão. Seu gosto por comportamentos sexuais considerados aberrantes ecoa
através dos séculos.
O historiador romano
Suetônio registrou:
“Além de abusar de
meninos nascidos livres e seduzir mulheres casadas, ele devassou a virgem
vestal Rúbria.”
Tratava-se de uma
acusação gravíssima. Deflorar uma Virgem Vestal era um dos maiores tabus da
Roma Antiga e, se comprovado, resultaria na morte da sacerdotisa por
sepultamento vivo. Da mesma forma, jovens nascidos livres não deveriam ser
tocados, muito menos corrompidos.
Diz-se também que
Nero manteve relações incestuosas com sua própria mãe, Agripina, a Jovem.
Suetônio relata:
“Que ele até mesmo
desejava relações ilícitas com sua própria mãe, e foi impedido por seus
inimigos, que temiam que tal relacionamento desse à mulher imprudente e
insolente uma influência excessiva, era notório, especialmente depois que ele
adicionou a suas concubinas uma cortesã que diziam se parecer muito com
Agripina.”
Em 59 d.C., Nero
assassinou sua mãe. Muitos historiadores acreditam que o imperador cometeu
matricídio porque Agripina se opunha ao seu relacionamento com Sabina, com quem
Nero se casou em 62 d.C.
A morte de Sabina
permanece envolta em mistério. Algumas fontes afirmam que ela morreu devido a
complicações na gravidez; outras alegam que Nero, enfurecido, teria chutado a
imperatriz grávida até a morte.
Seja como for, em 66
d.C., Nero viu novamente o rosto de Sabina — agora no jovem chamado Sporus.
A Vida de Sporus
como Eunuco
Pouco se sabe sobre
o início da vida de Sporus, nem mesmo seu nome verdadeiro.
“Sporus” deriva da
palavra grega para “semente” ou “semeadura” e provavelmente foi um epíteto
cruel imposto por Nero, zombando da incapacidade do jovem de gerar herdeiros.
Há registros de que Nero passou a chamá-lo de “Sabina”.
Seu status social
também é incerto. Algumas fontes afirmam que ele era escravo; outras, que era
um liberto. O que se sabe com segurança é que Sporus era extraordinariamente
atraente, com traços faciais muito semelhantes aos da imperatriz falecida.
Segundo Suetônio,
Nero mandou castrar Sporus, passou a vesti-lo com estolas e véus femininos e
anunciou publicamente que sua amante agora era uma mulher. Em 67 d.C., realizou
uma cerimônia de casamento, tomando o jovem como esposa e nova imperatriz.
Suetônio escreve:
“Esporo, enfeitado
com as elegâncias das imperatrizes e transportado em uma liteira, [Nero] o
levou às cortes e aos mercados da Grécia e, depois, a Roma pela Rua das
Imagens, beijando-o afetuosamente de tempos em tempos.”
Por que Nero
insistiu não apenas em tomar Sporus como amante, mas também em apresentá-lo
publicamente como mulher? Teria sido apenas luxúria — ou uma estratégia
simbólica de dominação?
Homossexualidade sob
o Governo de Nero
Os costumes
relacionados à homossexualidade na Roma Antiga eram muito diferentes dos
contemporâneos. A questão central não era o gênero, mas a posição social e o
papel de poder.
Escravos eram
considerados “jogo justo”, enquanto homens livres deviam manter sempre a
posição dominante. A humilhação estava associada à passividade, não ao ato em
si.
![]()
![]()
![]()
Nesse contexto, Nero
não violava necessariamente as normas sociais: ele era, sem dúvida, o parceiro
dominante de Sporus, especialmente após a castração.
Ainda assim, a união
foi vista como uma impudicitia, isto é, uma forma de perversão ou falta de
decoro, conforme analisado por Craig A. Williams em Roman Homosexuality:
Ideologies of Masculinity in Classical Antiquity.
O sexo, na Roma
Antiga, era também uma arma de poder. Como observou Steven DeKnight, criador da
série Spartacus:
“A diferença era o
poder. Se você estivesse em determinada posição, precisava estar no topo.
Funcionava apenas de uma maneira.”
Assim, embora Sporus
fosse chamado de imperatriz, seu poder real era mínimo — comparável ao de um
escravo.
Eunucos na Roma
Antiga
Apesar da
marginalização social, os eunucos podiam exercer grande influência política.
Sem descendência ou ambições dinásticas, eram vistos como figuras “neutras” e,
por isso, frequentemente colocados em posições estratégicas.
Exemplos notáveis
incluem Bagoas, amante de Alexandre, o Grande, e Pothinus, conselheiro de
Ptolomeu VIII.
Alguns historiadores
levantam a hipótese de que Nero jamais tenha se apaixonado por Sporus. Em vez
disso, o jovem teria sido castrado para neutralizar qualquer possível
reivindicação ao trono.
Segundo essa teoria,
Poppaea Sabina teria afirmado ser descendente ilegítima do imperador Tibério.
Se Sporus se parecia tanto com Sabina, isso poderia indicar um parentesco,
tornando-o um potencial rival político.
A castração física e
social teria sido, portanto, uma solução cruel, mas eficaz.
Em 1º de janeiro de
68 d.C., Sporus presenteou Nero com um anel representando o Rapto de Perséfone
— a jovem levada à força para o submundo por Hades. O simbolismo era
perturbador.
A Morte de Nero e o
Fim Trágico de Sporus
A população romana
estava amplamente insatisfeita com Nero, frequentemente acusado — ainda que
injustamente — pelo Grande Incêndio de 64 d.C. Declarado inimigo público pelo
Senado, Nero fugiu de Roma, acompanhado por Sporus.
Ao saber que seria
executado, Nero contou com a ajuda de seu secretário, Epafrodito, para tirar a
própria vida.
Após sua morte,
Sporus passou para Nymphidius Sabinus, depois para Otão, e finalmente caiu sob
o domínio do imperador Vitélio.
Vitélio planejava
expor Sporus à humilhação pública, forçando-o a representar Perséfone em um
espetáculo de gladiadores. Diante disso, Sporus escolheu o suicídio.
Seu nome
sobreviveria como símbolo de escárnio, chegando até à poesia de Lord Byron, que
escreveu:
“Sporus, essa mera coalhada branca de leite de jumenta?
Sátira ou bom senso, infelizmente!
Sporus pode sentir?
Quem quebra uma borboleta em cima de uma roda?”
Sequestrado,
mutilado, abusado e eternamente lembrado por isso, Sporus pagou um preço
altíssimo por carregar o rosto de uma imperatriz.
0 Comentários